Portal da transparência de SP, para inglês ver (literalmente)

Hoje o governo de São Paulo lançou o seu portal da transparência. A iniciativa, infelizmente, frustra muito o usuário pois a maioria dos dados publicados, não são dados abertos. Ou seja, há relatórios em formato pdf e dados confinados em banco de dados Oracle que não podem ser exportados e manipulados pela população. Por manipulados, não entendam alterados. Manipulados significa agrupados, filtrados ou organizados de forma a facilitar a análise. Esta é uma das premissas da transparência, afinal, a dificuldade de analisar dados nestes formatos faz a ação de divulgar os dados ter efeito mínimo ou nulo. Como se não tivessem sido divulgados, pois não podem ser analisados. Este conceito é amplamente difundido em quem trabalha com transparência. Há vários documentos sobre o assunto, inclusive uma cartilha, promovida pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil, a W3C Brasil, o Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR e o Laboratório Brasileiro de Cultura Digital, com parte elaborada pelo Transparência Hacker, de 2011.

Mas o que mais me chocou: o site tem páginas em inglês! Ao clicar em “Investimentos Realizados” ou “Receitas arrecadadas por órgãos do Estado” o usuário é encaminhado para a página abaixo para consulta no banco de dados. É o termo “para inglês ver” levado ao pé-da-letra?

 

Observação em 18/01: hoje, um dia após o lançamento, as páginas foram traduzidas.

Isso, claro, se você tiver um curso de Oracle para manipular a consulta. Aliás, se você consegue fazer a consulta e obter algum resultado, este também não é dado aberto.

Arquitetura sofrível. Nesta página e nas subsequentes, não existe botão de retornar, nem se retorna ao clicar na logo do portal. Ou seja, o usuário tem que ficar clicando em “Voltar” no browser, se quiser retornar à pàgina principal. Encontrei outros vários problemas de usabilidade, mas não é o caso listá-los aqui.

E então, finalmente encontrei dados que podem ser exportados. Estão “escondidos” no link “alimentação escolar” que agrupa outros tipos de despesa também. O arquivo exportado peca porque todos os campos do banco de dados vem em um só campo. Ou seja, mais trabalho para alguém que queira ultilizar os dados para análise.

Lamentável. Revoltante, até. A intenção talvez tenha sido ótima, não dá para saber, mas a execução foi péssima. Me pergunto se os responsáveis envolveram as entidades que estudam e trabalham com isso e poderiam orientar sobre a forma correta de se fazer. Me parece um produto concebido erroneamente e não finalizado que entrou no ar. O que mais me intriga é que o Governo Estadual já tem outros sites de transparência, o Governo Aberto e o Prestando Contas. Primeiro, não entendi porque mais um portal. Segundo, estes 2 citados são bem melhores que o portal lançado hoje.

Resultados de um plano digital. Cadê o de São Paulo?

Nova Iorque criou, há aproximadamente um ano, um ousado plano para tornar a cidade “o mais digital que ela pode ser”. Já falei deste plano aqui. Neste vídeo, Rachel Sterne – Chief Digital Officer of NYC – mostra como o plano está mudando a cidade de NY e os resultados.

Esta é uma iniciativa em que outras grandes cidades, São Paulo por exemplo, estão muito atrasadas. É um absurdo que uma cidade do porte de São Paulo não tenha uma pessoa responsável por pensar em e-gov. As iniciativas ficam por conta da Secretaria de comunicação (que recentemente lançou um edital para agência de comunicação digital), mas que não tem o poder de oferecer os serviços contemplados num verdadeiro governo eletrônico porque o edital (e a verba) limitam-se somente ao âmbito da própria secretaria. E para se fazer um e-gov de verdade, é preciso integrar serviços, bancos de dados e ter uma visão geral. Não é uma visão de comunicação, o olhar necessário é o de serviço ou melhor: design de serviço.

Tem eleições no próximo ano. Espero ver um plano consistente de governo eletrônico na agenda dos candidatos.

O vídeo está em inglês.