Você, no centro da questão

Em meu último post, apresentei o Youtube for government e critiquei a falsa impressão que alguns podem ter de que basta o governo ter canais de comunicação nas chamadas mídias sociais para ele se considerar “e”. Ou seja, para realmente prestar serviço ao cidadão, qualquer governo deve fazer bem mais que isso. Deve mudar  seu modus operandi e sua cultura. Falei disso também no Social Media Brasil 2011. Óbvio que sou a favor do Youtube incentivar governos a criarem canais e compartilharem vídeos informativos, principalmente porque pode mostrar ao Governo que não é necessário gastar tanto com TV (longa discussão), mas eu só queria alertar para que uma funcionalidade não virasse o todo. E também para que abrir um canal no Youtube não significa modernizar a comunicação se você estiver apenas transferindo a velha política para um novo canal.

Programas bem sucedidos de implantação de e-gov exigem planejamento a médio prazo, no mínimo. E exigem um redesenho dos seus serviços. Ou seja, também não basta pegar o sistema de matrícula e transforma-lo em web-based. É preciso redesenhar o processo de matrícula e integrar todos os canais por onde o serviço é prestado. Se um pai ou uma mãe estiver fazendo a matrícula do filho na escola pública pela web e a conexão cair, o que ela(e) faz? Todas estas orientações precisam estar claras e o serviço garantido independente do canal utilizado. E exige participação pública.

Hoje tive acesso ao Programa de implementação de um governo 2.0 em British Columbia, um distrito do Canadá, através do Blog Mundoutro. Apesar de concordar com ela de que é necessário mais do que disponibilizar serviços de alta qualidade, é preciso promover a participação nos próprios processos políticos, vejo o documento como um planejamento inicial estruturado para o que chamo de Gov-to-you (o ideal é o gov-with-you). Você também pode baixar o programa, mas abaixo listo os principais pontos que me chamaram atenção.

Primeiro, o nome do programa: “Cidadãos no centro”, significando “O cidadão no centro dos nossos esforços e atenção”.

Segundo, os princípios estabelecidos:

Primeiro princípio: “Nós vamos estimular os cidadãos a criar valor a partir de dados abertos do governo.”

Segundo princípio: “Nós vamos economizar o tempo do cidadão em suas interações com o governo e facilitar o acesso a serviços de melhor qualidade.”

Terceiro princípio: “Nós vamos encorajar a colaboração no serviço público porque ela é essencial para a entrega de serviços de qualidade.”

É isso, são apenas 3 princípios. Simplicidade, minha gente.

O discurso inicial de Allan Seckel,  chefe do Serviço Público de B.C. demonstra a consciência que levou aos 3 princípios. Ele diz:

Uma transformação efetiva envolverá mais do que novas ferramentas e sistemas. Uma transformação real e substantiva vai requerer um esforço de mudança de políticas, práticas e legislação para garantir que estas suportem a efetiva aplicação e uso da tecnologia. Nós já começamos a trilhar este caminho, mas este plano vai nos levar além e, no processo, testar nossa determinação em mudar. E o mais importante, nosso sucesso será determinado pela nossa força de vontade em mudar através do esforço de aproximadamente 30.000 funcionários. Isso significa que não apenas devemos suportar, mas realmente estimular a criatividade e novas ideias, e devemos ser muito determinados em trabalharmos juntos como uma única organização. Tradicionalmente, as operações do governo tem refletido sua estrutura altamente dividida, com cada programa construído somente a partir do orçamento da sua área, seus sistemas, suas redes. Hoje, nós estamos migrando para um modelo mais colaborativo para encaminhar questões maiores, modelo este desenhado sobre os recursos de múltiplos ministérios, agências externas e outros níveis do governo. Vamos encorajar a colaboração enquanto desencorajamos a fragmentação. Nosso objetivo é mudar das práticas tradicionais que apenas resultaram na implementação de soluções paliativas para manter e modificar sistemas existentes para uma abordagem mais a longo termo. É hora de darmos um passo mais ambicioso para transformar como o governo presta seus serviços. Eu sei que ultrapassar estas barreiras não será fácil. Requer tempo e comprometimento a longo prazo. Algum progresso vai ser visível rapidamente  e outros vão levar anos. E o mais importante, esta mudança requer que o Serviço Público  não apenas mude algumas políticas e tecnologias, mas também sua cultura. Tenho muita confiança de que estamos preparados.

É isso aí, Governo 2.0 é mais do que um termo da moda. Exige investimento, estrutura, redesenho de serviços, mudança cultural, colaboração, participação pública e muita força de vontade. Exige colocar o cidadão no centro da questão.

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