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Portal da transparência de SP: para quem?

Ontem, chamei a atenção para as páginas de consulta de despesas em inglês no novo portal da transparência do Governo de SP. As páginas foram traduzidas. Que bom. Mas é uma pena que o site tenha tantos problemas de concepção ou de entendimento do conceito de transparência, aparentemente. Com isso, traduzir uma página em inglês é o mínimo, já que elas continuam incompreensíveis. A página em si, é um formulário que parece vir direto do banco de dados. Ou seja, o usuário tem que escolher opções como esta abaixo, onde está escrito: “Digite uma string de pesquisa para encontrar um arquivo de trabalho específico ou um conjunto de resultados. Use o menu drop-down para escolher entre Arquivos de Trabalho de Banco de dados e Arquivos de trabalho programados.”

O que são “Arquivos de Trabalho de banco de Dados” e “Arquivos de Trabalho Programados”?  Quem é o cidadão que sabe o que isso significa? Eu não sei. Logo abaixo vem isso:

De novo, o que significa “renovar”? Ou seja, o usuário não tem a menor noção de como usar esta tela e chegar nos resultados. O Manual de navegação ajuda, mas se você chega lá. Ele está em um outro link, que por sua vez, tem subdivisões. E sabe o que você deve fazer nesta tela segundo o manual? Apenas clicar em ” Investimentos”.

Hoje consegui também exportar o resultado. Muito bom isso. Ou seja, os dados podem ser manipulados para análise. Apesar disso, alguns campos vieram preenchidos com “N.A”. Não sei o que significa e não consta no glossário.

Na página de resultados, tentei clicar no menu “opções de planilha” para ver o que o sistema retornava. Me foi pedida uma senha, conforme abaixo. Senha??

Daí resolvi clicar em “Criar conexão” e outra tela incompreensível me foi apresentada:

Atençao para a “dica”: Será solicitado que você selecione uma Camada do usuário Final e/ou uma Responsabilidade dos Aplicativos se houver mais de uma.” Ah, tá. Com essa dica, entendi tudo!

Cliquei em “Stoplight” para saber o que era isso, também logo acima do resultado da consulta. O sistema me retornou esta tela abaixo, com esta dica: “A faixa aceitável está entre valores inaceitáveis e desejáveis.” Oi?

Estes são apenas alguns exemplos dentre tantos absurdos que encontrei. Não dá para colocar todos, o post ficaria comprido demais.

Honestamente, talvez fosse melhor ter deixado a tela em inglês mesmo. Melhor incompreensível por estar em outra língua do que incompreensível em nosso próprio idioma.
Curioso, boa usabilidade é um dos objetivos do portal, como eles próprios afirmam no “Sobre o portal”. Veja:

Como eu disse ontem: revoltante. Parece descaso  tanto com o tema transparência quanto com o cidadão.

Portal da transparência de SP, para inglês ver (literalmente)

Hoje o governo de São Paulo lançou o seu portal da transparência. A iniciativa, infelizmente, frustra muito o usuário pois a maioria dos dados publicados, não são dados abertos. Ou seja, há relatórios em formato pdf e dados confinados em banco de dados Oracle que não podem ser exportados e manipulados pela população. Por manipulados, não entendam alterados. Manipulados significa agrupados, filtrados ou organizados de forma a facilitar a análise. Esta é uma das premissas da transparência, afinal, a dificuldade de analisar dados nestes formatos faz a ação de divulgar os dados ter efeito mínimo ou nulo. Como se não tivessem sido divulgados, pois não podem ser analisados. Este conceito é amplamente difundido em quem trabalha com transparência. Há vários documentos sobre o assunto, inclusive uma cartilha, promovida pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil, a W3C Brasil, o Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR e o Laboratório Brasileiro de Cultura Digital, com parte elaborada pelo Transparência Hacker, de 2011.

Mas o que mais me chocou: o site tem páginas em inglês! Ao clicar em “Investimentos Realizados” ou “Receitas arrecadadas por órgãos do Estado” o usuário é encaminhado para a página abaixo para consulta no banco de dados. É o termo “para inglês ver” levado ao pé-da-letra?

 

Observação em 18/01: hoje, um dia após o lançamento, as páginas foram traduzidas.

Isso, claro, se você tiver um curso de Oracle para manipular a consulta. Aliás, se você consegue fazer a consulta e obter algum resultado, este também não é dado aberto.

Arquitetura sofrível. Nesta página e nas subsequentes, não existe botão de retornar, nem se retorna ao clicar na logo do portal. Ou seja, o usuário tem que ficar clicando em “Voltar” no browser, se quiser retornar à pàgina principal. Encontrei outros vários problemas de usabilidade, mas não é o caso listá-los aqui.

E então, finalmente encontrei dados que podem ser exportados. Estão “escondidos” no link “alimentação escolar” que agrupa outros tipos de despesa também. O arquivo exportado peca porque todos os campos do banco de dados vem em um só campo. Ou seja, mais trabalho para alguém que queira ultilizar os dados para análise.

Lamentável. Revoltante, até. A intenção talvez tenha sido ótima, não dá para saber, mas a execução foi péssima. Me pergunto se os responsáveis envolveram as entidades que estudam e trabalham com isso e poderiam orientar sobre a forma correta de se fazer. Me parece um produto concebido erroneamente e não finalizado que entrou no ar. O que mais me intriga é que o Governo Estadual já tem outros sites de transparência, o Governo Aberto e o Prestando Contas. Primeiro, não entendi porque mais um portal. Segundo, estes 2 citados são bem melhores que o portal lançado hoje.

Resultados de um plano digital. Cadê o de São Paulo?

Nova Iorque criou, há aproximadamente um ano, um ousado plano para tornar a cidade “o mais digital que ela pode ser”. Já falei deste plano aqui. Neste vídeo, Rachel Sterne – Chief Digital Officer of NYC – mostra como o plano está mudando a cidade de NY e os resultados.

Esta é uma iniciativa em que outras grandes cidades, São Paulo por exemplo, estão muito atrasadas. É um absurdo que uma cidade do porte de São Paulo não tenha uma pessoa responsável por pensar em e-gov. As iniciativas ficam por conta da Secretaria de comunicação (que recentemente lançou um edital para agência de comunicação digital), mas que não tem o poder de oferecer os serviços contemplados num verdadeiro governo eletrônico porque o edital (e a verba) limitam-se somente ao âmbito da própria secretaria. E para se fazer um e-gov de verdade, é preciso integrar serviços, bancos de dados e ter uma visão geral. Não é uma visão de comunicação, o olhar necessário é o de serviço ou melhor: design de serviço.

Tem eleições no próximo ano. Espero ver um plano consistente de governo eletrônico na agenda dos candidatos.

O vídeo está em inglês.

Há uma pedra collorida no meio do caminho

Estamos em um dos momentos mais importantes do país no que se refere ao nosso futuro como sociedade organizada e à qualidade da nossa democracia. A lei de acesso à informação (PLC 41/10), que tramita no Senado,estabelece que os cidadãos tenham acesso às informações públicas de forma clara, integral e atualizada. E mais, que estas informações possam ser manipuladas por sistemas computacionais. Se a Lei passar com o texto atual, você poderá saber qual o índice de criminalidade de um determinado bairro antes de abrir o seu negócio ali, por exemplo.

Novos empreendedores e comunidades de desenvolvedores irão criar centenas de aplicativos e websites que dêem funcionalidade a estes dados, desonerando os governos deste papel e estimulando a participação democrática do cidadão nos governos.

Porém, o Projeto de Lei, que já passou pela Câmara dos deputados com seu texto aprovado na íntegra, encontra um entrave: Fernando Collor de Melo. Atual Senador pelo Estado de Alagoas, ele e o Senador José Sarney acham que eu e você não devemos ter acesso às informações públicas.

Podemos torcer para ele mudar de ideia, como mudou ao longo dos anos sobre os “cambalachos”, ou melhor, alianças políticas com José Sarney. Veja a partir do minuto 1:19 deste vídeo (aliás, este vídeo chega chega a ser cômico: Lula e Collor renegando o atual aliado José Sarney. Atual aliado dos 2.)

Ou podemos protestar e cobrar dos nossos senadores que votem o projeto de lei na íntegra.

#brasiu, mostra a sua cara

No dia 20/07, fiz este post aqui, questionando a legitimidade do Brasil para ocupar a principal cadeira  da Open Government Partnership (site em inglês), junto aos Steits. Para quem ainda não sabe, esta parceria é uma iniciativa para ampliar a transparência e democracia no mundo. Pois bem, o Brasil está longe de ser modelo de transparência – segundo a ONU, ocupamos hoje o 61o. lugar no ranking de governos eletrônicos (relatório em pdf). Por quê fomos escolhidos? Será que temos cacife? E nossa Lei de acesso à informação? Acho que falta “comer muito feijão ainda”, como se diz na minha terra.

Hoje descobri que não sou a única a questionar. Me deparei com este post (em inglês) do Blog Observing Brazil (em inglês), do cientista político canadense Greg Michener, habitante do Rio de Janeiro. Veja também esta matéria sobre o que ele postou.

Mas volto no assunto porque hoje li também que cada país participante está com a tarefa de criar um plano para 1 ou mais entre os 5 principais desafios que os governos enfrentam: aprimorar os serviços públicos,  aumentar a integridade pública, administrar melhor recursos públicos, criar comunidades mais seguras e incrementar a governança . Os EUA estão fazendo  a tarefa de casa e pediram opinião da população sobre alguns temas para construirem seu plano. No Brasil, nem ouvimos falar desse assunto. E a próxima reunião será em setembro agora.  O Ministro Antônio Patriota nos representou na última reunião. Eu pergunto: o que levaremos para a próxima reunião da OGP? Podemos ter acesso a este conteúdo?

Aproveito para deixar um vídeo de março deste ano com vocês.

#brasiu